Jesus disse: “Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos”. Entenda o contexto.

Imagem ilustrativa de sepultamento. (Foto: Canva)

Imagem ilustrativa de sepultamento. (Foto: Canva)

Publicado em Segunda-feira, 1 Novembro de 2021 as 2:23

“Outro discípulo lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai. Mas Jesus lhe disse: Siga-me, e deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos”. (Mateus 8.21,22)

Não são poucas as confusões causadas por falta de entendimento e má interpretação do texto bíblico. Ao ler essa passagem, muitos pensam que o discípulo estava ali conversando com Jesus, enquanto o velório de seu pai acontecia. Será que Jesus diria algo assim num momento tão delicado?

Antes de entender o que Jesus realmente quis dizer, vamos entrar no contexto. No momento em que Jesus disse essas palavras, a sociedade da época estava agitada com a chegada do Messias. Alguns estavam extasiados com tudo o que viam, enquanto outros estavam duvidosos.

Jesus estava mostrando como é a cultura do Reino de Deus [capítulo 7], confrontando a cultura humana, “as multidões ficaram maravilhadas com o seu ensino, porque ele ensinava com autoridade, e não como os mestres da lei” [vs. 28,29].

A Bíblia diz que, ao descer do monte, as pessoas seguiram Jesus. Na ocasião, ele curou um leproso, o servo do centurião que teve fé e a sogra de Pedro. Depois expulsou espíritos imundos de endemoninhados e curou muitos doentes. Por tudo isso, as multidões desejavam seguir Jesus.

Porém, nem todos estavam dispostos a largar tudo, afinal, era necessário haver uma conversão, uma mudança radical — metanoia — mudança de pensamento e de atitude. Não há como se converter e seguir um novo caminho quando ainda se está preso aos velhos hábitos e costumes. Foi o que aconteceu com o discípulo que anunciou que primeiro precisava “enterrar seu pai”.


Sepultura de Oskar Schindler, Jerusalém, junho de 2019. Judeus costumam depositar pedras nos túmulos em homenagem aos mortos, ilustrando que suas memórias foram preservadas.  (Foto: Bernd Weißbrod/DPA/Getty Images)

Não era um velório

Se o pai daquele discípulo estivesse morto, ele não estaria ali tendo aquela conversa com Jesus, mas estaria num ritual de sepultamento. Conforme explica Douglas Gonçalves, do movimento JesusCopy, na série “Mateus Comentado por Nós”, em seu canal no YouTube: “Aquela era uma expressão para dizer ‘deixa eu receber minha herança primeiro’. Espere meu pai morrer”.

Quer dizer que o discípulo não estava disposto a largar tudo para seguir a Cristo naquele momento, ele estava preocupado em ter uma segurança antes disso. Ele não compreendeu a “jornada de vida” que Jesus estava propondo a ele. E vale lembrar também que, na cultura judaica, cuidar dos pais até a velhice é uma questão de honra.

Enquanto Jesus falava de vida eterna, o discípulo só enxergava a vida passageira da terra. “Muitos não calculam o custo que é seguir a Cristo e acha que a jornada será de mil maravilhas. Mas na verdade, é uma jornada de entrega de vida”, esclareceu Douglas.

Segundo ele, muita gente acha que antes de seguir Jesus é preciso que tudo esteja perfeito e confortável, com um “plano B” caso algo dê errado. “Mas essas são obras mortas. Jesus disse: ‘Vem, e me segue’”, reforçou Douglas.

Com isso, Jesus resume que “esperar o pai morrer para receber a herança” é uma atitude que mostra que o discípulo estava focado em “coisas mortas”. Daí sua expressão: “Deixe que os mortos enterrem os seus mortos”, ou seja, quem só visa o mundo material já morreu espiritualmente.


Suzane von Richthofen planejou a morte dos pais para receber herança, em 2002. (Foto: Grieger/Folha Imagem/Veja)

Onde está a nossa segurança?

No contexto que estamos estudando, podemos perceber que nem todas as pessoas confiam em Deus como seu provedor. O caso do discípulo em questão, pode nos mostrar várias características de falta de confiança no Criador.

Primeiro, vemos a preocupação com o conforto material, já que ele teria sua herança garantida após a morte do pai. Além disso, a dedicação com as responsabilidades e os laços familiares fizeram com que Jesus fosse colocado em segundo plano. Possivelmente, ele estava focado em não desapontar seus parentes.

Quanto custa seguir a Cristo?

A sua vida! Seguir a Cristo envolve renúncia e determinação. O momento da decisão é um momento de morte. É preciso morrer para este mundo para viver um relacionamento legítimo com Deus.

“...vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus.” (Tiago 4.4)

Não há como viver nos dois mundos simultaneamente. Veja o que Jesus disse:

“Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a vida por minha causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?”. (Lucas 9.23-25)

“Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.” (Gálatas 5.24,25)

Paulo é um bom exemplo disso. Veja o que mais ele disse:

“Com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro.” (Filipenses 1.20,21)

Então, quer dizer que nossos próprios sonhos e desejos precisam morrer para que os sonhos e planos de Deus em nossas vidas possam se realizar.


Cena do filme “Paulo, Apóstolo de Cristo”. (Foto: Divulgação)

Nem todos estão dispostos a pagar o preço

Antes da manifestação do discípulo que não estava pronto para largar sua vida confortável e pediu para Jesus esperar seu pai morrer, perceba que Jesus havia lançado um desafio.

Nos versículos anteriores, um mestre da lei afirmou que estava disposto a tudo para seguir sua jornada com Jesus. Ele disse: “Mestre, eu te seguirei por onde quer que fores”. (Mt 8.19). E veja o que Jesus respondeu:

“As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. (Mt 8.20)

Jesus não garante nenhum tipo de recompensa física para quem o seguir — não existem promessas de chave de casa, chave de carro, caneta de ouro assinando grandes contratos ou curas instantâneas.

Embora possa existir esse tipo de bênção para algumas pessoas, não é essa a motivação para seguir a Cristo. Esse é o nível de comprometimento para quem se decide por Jesus: não se trata de um contrato, mas de uma aliança. Não é uma negociação, é uma entrega.

Jesus estava deixando isso bem claro a todos os seus ouvintes e seguidores. Perceba que o mestre da lei tomou sua decisão e a declarou. Enquanto o discípulo que recebeu o convite: “Siga-me” [ver Lc 9.59] colocou uma condição, que era enterrar seu pai primeiro.

O livro de Lucas mostra que um outro ainda disse: “Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e me despedir da minha família”. E Jesus respondeu: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. (Lucas 9.61,62)

A despedida da família, possivelmente, seja outra expressão. Não quer dizer simplesmente voltar para casa, fazer as malas e abraçar os parentes. Não tem nada a ver com uma despedida de aeroporto ou rodoviária, como em nossos dias.

E quanto à simbologia do arado — naquela época não era nada fácil “arar a terra” através do auxílio de animais. Era necessária muita atenção para manter o alinhamento. Qualquer “olhada para trás” poderia fazer o arado perder a direção e isso comprometeria o plantio e a colheita. Agora, aplique essa simbologia à vida com Cristo.


Imagem do filme “A Paixão de Cristo”.

Na última Ceia com os discípulos, Jesus disse: “Mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E quando você se converter, fortaleça os seus irmãos”. (Lucas 22.32)

Estamos prontos para entrar no Reino de Deus?

Muitas vezes, a nossa preocupação excessiva com nossos pais, como nosso caso do discípulo em questão, faz com que o Reino de Deus não seja a prioridade em nossas vidas.

Jesus veio para revolucionar nosso jeito de pensar e de viver. Ele veio para colocar todas as coisas em seus devidos lugares. Ele veio para nos resgatar de uma cultura que não favorece a nossa entrada no Reino de Deus. Jesus veio organizar nossas ideias e nossos sentimentos. Ele veio trazer o real significado de sua própria carta de amor.

Daí o trocadilho “Deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos”, ou seja, deixe que as pessoas mortas espiritualmente esperem pela morte física de outros para receber uma herança que será consumida com o tempo. O texto está apontando para as pessoas que colocam sua prioridade nas coisas desta vida e não nas coisas de Deus.

Quem prioriza a herança da terra, receberá a herança da terra. Mas, quem prioriza a herança do céu receberá a vida eterna.

“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.” (Mateus 6.19-21)

E esse foi o estudo desta semana. Espero que tenha tirado a sua dúvida e também colaborado para o seu crescimento espiritual. Beijo no coração e até a próxima, se Deus quiser!

Por Cris Beloni, jornalista cristã, pesquisadora e escritora. Lidera o movimento Bíblia Investigada e ajuda as pessoas no entendimento bíblico, na organização de ideias e na ativação de seus dons. Trabalha com missões transculturais, Igreja Perseguida, teorias científicas, escatologia e análise de textos bíblicos.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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