As nuances do “Mito de Procusto” no ministério pastoral

(Foto: Pinterest)

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Publicado em Sexta-feira, 3 Julho de 2020 as 12:54

A palavra ministério é definida basicamente pela execução de uma tarefa, de uma obra, uma atividade ou trabalho. Ainda se refere a uma ocupação exercida por alguém, um cargo, função ou profissão. Essa palavra, comumente é utilizada para definir a função de ministro de Estado, mas também pode ser atribuída ao ofício de sacerdote, ou de ministro religioso. Em sua origem etimológica, a palavra ministério traz o significado de trabalho ou sacerdócio. (1)

O ministério relacionado ao ofício pastoral compõe atribuições específicas ao seu exercício. Dentre essas, uma de grande destaque é o exercício da poimênica. A poimênica eclesiástica sinaliza o cuidado de uns aos outros, embasado nas Escrituras. Seria um cuidado que se ocupa da promoção da esperança na anunciação das boas novas da salvação crística, do amor, perdão, paz e renovação da vida, tanto para a eternidade como para a existência na terra. Assim sendo, a poimênica estaria no centro das atribuições pastorais, pois diz respeito ao cuidado pastoral, exercido especialmente por vocacionados e treinados para o seu exercício.

A tarefa poimênica mostra sua relevância por promover uma rede de apoio na comunidade, no sentido bíblico, que envolve o cuidado de uns aos outros, solidificando na vivência prática o mandamento do amor a Deus e ao próximo. A nobre poimênica, no meio eclesiástico, atrai muitos vocacionados pelo sentido imbuído na tarefa, que aponta para valores eternos que resgatam a essência do cuidado nas relações humanas. Quem aspira ser bispo, ou pastor, ensina o apóstolo Paulo em 1 Timóteo 3.1, uma nobre atividade deseja.  

No entanto, na vivência do ministério pastoral, a poimênica nem sempre encontra espaço para o seu exercício. As exigências emergem, muitas vezes, por inúmeras atividades que devem ser adequadas a formatos impostos por interesses pessoais de alguns membros da comunidade. Surgem, em boa parte, de pessoas que se julgam os “donos da igreja”. Suas demandas podem se tornar imperativas para um pastor ou pastora, ao ponto de se ver obrigado a atender aos caprichos de suas ordens e óticas de ministério, caso contrário pode sofrer ameaças de descarte de seu ofício. Essas ameaças nem sempre são escancaradas, mas, podem se manifestar nas entrelinhas relacionais por meio de manipulações, seduções, desqualificações, difamações, acusações ou calúnias.

Assim, o pastor ou a pastora, por vezes, acaba abrindo mão de suas convicções, dons e talentos para se encaixar nas demandas e se adaptar às intolerâncias de certas pessoas, que se posicionam como “as poderosas” da instituição denominacional. Isso pode acontecer de forma gradativa e imperceptível. Os desconfortos vão se instalando, e, infelizmente, com o passar do tempo, podem causar danos de difícil reparação. Atender aos caprichos de uma classe exclusiva e abusiva da igreja, nem sempre é garantia para o pastor ou a pastora de que conseguirá permanecer e realizar o ministério para o qual foi vocacionado(a) ou contratado(a). Isso acontece, especialmente, porque pessoas abusivas e intolerantes nem sempre se contentam com o cumprimento do exigido por elas. Apresentam um perfil intolerante viciado, de forma que aquele pastor ou aquela pastora jamais conseguirá se encaixar em suas vontades. Suas ações continuarão impondo tarefas aos pastores ou pastoras, que serão desqualificadas em sua execução. Permanecer em um ministério assim poderá desencadear um adoecimento, ou mesmo uma morte, que pode ser da saúde mental, emocional, relacional, espiritual ou até física.

Nesse ponto, vale utilizar as nuances do mito de procusto, para se fazer uma relação com contextos ministeriais que boicotam a condição poimênica, que afetam significativamente a saúde pastoral. O mito grego conta a história de um homem que vivia em uma floresta e que atraia os viajantes, que passavam por ali, para se hospedarem em sua choupana. Em sua pseudo hospedaria, havia uma cama de ferro que tinha a medida exata de seu hospedeiro. Os seus atraídos hóspedes eram “convidados” para se deitarem nessa cama, onde eram amarrados. Muito intolerante, não aceitava que alguém não se encaixasse na medida exata da cama. Caso alguém não coubesse na cama, ele adequava o corpo do seu hóspede prisioneiro ao tamanho exato. Para isso, procedia da seguinte maneira: aqueles que eram maiores do que a cama, ele cortava parte dos membros, como cabeça e pés, e aqueles que eram menores, ele esticava o corpo quebrando os ossos do hóspede. No entanto, secretamente, o cruel hospedeiro tinha duas camas de ferro, uma menor e outra maior. Os hóspedes grandes ele colocava na cama menor e os pequenos na cama maior. Ou seja, ninguém se encaixava em nenhuma das camas, e todos passavam por suas torturas não sobrevivendo a elas.

A palavra Procusto quer dizer esticador, daí o nome do mito. Carrega em si o seguinte conceito subjetivo: se você se destacar, cortarei seus pés. Se você demonstrar ser melhor que eu, cortarei sua cabeça...”. (2).  Um texto sobre esse tema, publicado no site “a mente é maravilhosa”, explica esse conceito da seguinte forma:

A síndrome de Procusto faz referência a pessoas que menosprezam quem é superior a elas em talento e habilidades. E mais, não hesitam em discriminá-las e até mesmo em persegui-las. São pessoas que não progridem nem deixam os outros progredirem, perfis frustrados ou com autoestimas muito exageradas que estão presentes em muitos ambientes do nosso dia a dia.” (3)

Esse mito oferece uma analogia relevante para se perceber e avaliar algumas intolerâncias e narcisismos de pessoas em equipes e lideranças. Certamente que não de forma concreta, mas muitas “mortes” de pessoas brilhantes e incríveis já foram promovidas por pessoas com um perfil similar ao protagonista do mito de Procusto. Ou seja, pessoas com o perfil de Procusto, não toleram que outras brilhem e têm uma satisfação em adequar outros aos seus caprichos. Até podem promover aceitação, mas se comportam como “Procustos”, ao sistematicamente destruírem a reputação de alguém que se sobressaia a eles. Podem ter um carisma de atração, criando expectativas de aceitação e acolhimento, mas mostram-se torturadores de seus atraídos. Dessa forma, assim como no mito de Procusto, se tornam “esticadores” ou “cortadores” das atribuições, ou ofícios, ou ministérios, ou subjetividades de pessoas a quem pretendem subjugar. Assumem posturas intolerantes com aquelas que não se encaixam em suas vontades e desejos. Pastores e pastoras subjugadas à pessoas com esse perfil, muitas vezes consideram que serão aceitos, amados e alcançarão espaço para exercer seu ministério de forma consistente, caso se adequem aos seus caprichos. No entanto, essa ótica se mostra um tanto quanto ingênua, pois, assim como os hóspedes de Procusto, dificilmente sairão ilesos dessa relação. Seria melhor despertar a tempo de manter sua saúde. Talvez seja mais saudável reconfigurar o ministério em outro formato, ou mesmo em outro lugar, do que permanecer ali aguardando pela aniquilação de seus dons e talentos.

Por outro lado, a analogia do mito, também pode ser usada para apontar que há pastores e pastoras com o perfil de Procusto. São líderes em igrejas que são intolerantes com seus liderados. Atraem pessoas ao seu contexto eclesiástico buscando adequá-los à sua medida. Qualquer pessoa que não se encaixar em suas propostas, impostas de forma inquestionável, ou que apresentar alguma expressão de dons e talentos que “ofusque o seu brilho”, poderá experimentar abusos e assédios morais e espirituais. Inicialmente, pode ser muito sutil, mas se impõem de forma dramática no percurso, por meio de opressões, desqualificações, acusações, ameaças e condenações. No entanto, as posturas de Procusto, como “esticar” alguém para além de seu tamanho, ou “cortar” alguém para ser menor, podem ser torturas de ordem objetiva e subjetiva, desencadeadoras de perda da auto confiança, da auto estima, da fé e da esperança. Será necessário ter cautela, pois permanecer em ministérios com pastores e pastoras com o perfil de Procusto pode ser devastador para a saúde física, mental, emocional, relacional e espiritual.

Cabe uma avaliação sobre as posturas assumidas dentro do ambiente eclesiástico, tanto por parte de pastores e pastoras, como dos demais. Se for pastor ou pastora, vale perguntar: como é a interação com as demais pessoas que participam do seu ministério? Você tem sido um “esticador” e “cortador”, exercendo uma intolerância em relação às pessoas que não se encaixam em suas propostas ou que demonstrem dons e talentos mais aprimorados que os seus? Por outro lado, se for um membro da igreja ou da diretoria, um líder de departamento ou grupo, ou um dos fundadores da igreja, também vale perguntar: como tem sido a interação com o pastor, ou a pastora? Será que você tem agido como um Procusto, que está constantemente sendo um empecilho para as ações pastorais em sua igreja? Será que, assim como o Procusto adequava seus hóspedes à medida da sua cama, você tem gasto energias demasiadas para adequar pastores e pastoras, os “esticando” ou “cortando” para se encaixarem na medida de sua “cama de interesses pessoais” para a condução da igreja?

Quem sabe já não é hora de perceber essa questão pelo ângulo do amor e promover algumas mudanças. O amor e o cuidado de uns aos outros, orientado nas Escrituras, aponta para a aceitação e acolhimento de forma empática, acolhedora, humilde e generosa. Dessa forma, com menos “Procustos” protagonizando em ambientes eclesiásticos, os ministérios pastorais poderiam fluir mais adequados aos preceitos bíblicos.

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(1)       Significado de ministério. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/minist%C3%A9rio

(2)       A síndrome de procusto: quero que você fique bem, mas não melhor do que eu. Disponível em:  https://amenteemaravilhosa.com.br/sindrome-de-procusto/

(3)       Idem.

Por Clarice Ebert, Psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Coordenadora e palestrante, em parceria com seu marido, do Ministério Vida Melhor (um ministério de cursos e palestras). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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