Tristeza não tem fim.

Saber que homens de tempos tão antigos também choraram suas dores traz ânimo. (Imagem: Getty)

Saber que homens de tempos tão antigos também choraram suas dores traz ânimo. (Imagem: Getty)

Publicado em Segunda-feira, 3 Setembro de 2018 as 12

Tom Jobim foi direto e reto: “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Poetas são assim, com elegância misturada a uma combinação perfeita de palavras transmitem aquilo que a alma sente sem saber explicar. Na coletânea dos Salmos encontramos uma dura, e rara, realidade transmitida em palavras. Por que rara? Porque em sua maioria, mesmo os salmos de lamento ou maldição, trazem uma estrutura que via de regra termina com louvor e exaltação a Deus, fornecendo uma virada positiva no final. Porém, mesmo nos salmos, existe alguns que fogem a regra, por isso são raros, por isso são difíceis de digerir.

Entre os raros, separei alguns versos de um deles, o 88 na tradução da Bíblia Viva, acompanhe: “Ó Senhor, Deus meu Salvador, dia e noite sem parar eu choro e imploro a tua ajuda... ouve os meus pedidos desesperados de socorro!... Fui abandonado entre os mortos... Tu me lançaste num abismo profundo, num buraco tão escuro que eu morro de medo... Fizeste meus amigos fugirem de mim; eles me detestam...Em breve, já será tarde demais! Para que farás milagres, quando eu já estiver morto?...” Palavras sufocantes, não? Então, quando você pensa que vai acontecer a virada, a poesia do salmo 88 termina sem qualquer alento ou esperança: “Sou como uma ilha, cercado por um mar de medo... Hoje, meu único amigo é a escuridão.”

Por incrível que pareça tais salmos me trazem conforto e consolo. A honestidade do Espírito Santo em inspirar tais poemas me ajuda a compreender fases inexplicáveis. Saber que homens de tempos tão antigos também choraram suas dores, estiveram em buracos existenciais, gritaram por socorro sem ouvir qualquer resposta, se viram isolados como uma pequena ilha em alto mar e tiveram como único e último amigo a escuridão, de certa forma traz ânimo para os nossos momentos de mares de lágrimas, pois se eles passaram e até conseguiram fazer da dor poesia, nós também podemos conseguir.

O que leva, no entanto, um adorador que não recebe qualquer resposta continuar em sua obediência e submissão ao Deus que tanto busca? Para mim, depois de ler e reler muitas vezes o salmo, encontrei a resposta no começo. Isso mesmo, no começo. Viradas positivas nos finais das poesias hebraicas são comuns, elas acontecem. Penso que o autor do salmo 88 enfrentava dores tão grandes e angústias tão desafiadoras que tratou de declarar sua confiança independente de obter qualquer resposta ou favor.

Ele, o autor, sabia tudo que iria desabafar, clamar e implorar em cada verso. Portanto sabia que nenhuma palavra seria em vão se cada uma fosse dirigida ao alvo certo. Assim ele trata de acertar o alvo logo na primeira frase: “Ó Senhor, Deus meu Salvador...” Pronto. Uma só frase carregada de três poderosas declarações. Senhor, Deus e Salvador, três títulos que somente o Eterno pode conter. Ele é meu Senhor, eu o obedeço. Ele é meu Deus, eu o adoro. Ele é meu Salvador, eu me rendo.

É só assim que podemos suportar as terríveis fases nas quais Deus parece distante e insensível ao nosso clamor, declarando pela fé que sabemos em quem temos crido. Neste mundo tristeza não tem fim, felicidade sim, mas não estamos limitados a este mundo, caminhamos para um mundo no qual a felicidade jamais terá fim, mas a tristeza sim.

Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: '"Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

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