Raiva e Perdão

(Foto: Asian Market)

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Publicado em Quinta-feira, 4 Julho de 2019 as 5:02

Como filho de pastor; psicólogo; e alguém que viveu no meio eclesiástico a vida inteira, posso dizer que seria fácil realizar uma autocrítica em áreas da minha vida que necessitam de melhorias. Certo?

Não. Infelizmente, não é tão simples assim.

Pouco tempo após o falecimento do meu pai, Pr. Edison Queiróz, Deus quis usar aquele período para me moldar (e como moldou) e se mostrar mais presente ainda em minha vida. Uma área, em especial, foi a raiva.

Meu pai havia morrido e eu estava lidando com tudo aquilo (afinal, ele faleceu três meses depois do meu casamento, inclusive, um dia antes, ele havia operado). Meu emocional estava desequilibrado e não conseguia ter uma percepção clara de tudo que estava ocorrendo.

Uma sucessão de coisas estranhas aconteceu e me levou a uma profunda decepção com diversas pessoas. Ao invés de lidar com isso buscando ajuda, eu deixei enraizar e aprofundar no fundo do meu coração, levando-me à amargura. A única coisa que passava pela minha mente era: "O dia deles chegará." Sim, eu cheguei a ponto de desejar o mal ao próximo. Por mais que eu sempre andasse com um sorriso no rosto, cada vez mais, a amargura se tornava real em minha vida, não conseguia enxergar nada como algo bom.

Para mim, o pior de tudo foi a influência negativa que exerci na vida da minha esposa. Infelizmente, não fui um bom sacerdote naquele período, e devido a minha amargura; levei-a a ficar amargurada também. A forma como ela lidava e enxergava Deus havia mudado; a raiva que sentia, passei para ela.

O engraçado em meio a tudo isso, foi que minha percepção estava embaçada. Eu não enxergava que, perante tudo isso, eu estava prejudicando minha vida e da minha esposa. Eu ficava 24 horas por dia apenas pensando em tudo que ocorreu e o quão "ruim" as pessoas foram. Minha alegria de ir à igreja desapareceu, eu ia aos cultos apenas para marcar presença. Não via mais motivo em orar e buscar a Deus. Minha mente e meu coração estavam completamente tomados pela raiva, e eu não enxergava isso. Eu tinha um problema, mas eu só conseguia enxergar o problema do outro (Mateus 7:5).

Certo dia, estava conversando com alguns amigos meus, em um grupo. Uma amiga convidou todos nós para um evento que aconteceria em breve. Por algum motivo (o qual até hoje não sei explicar), aquele convite despertou uma grande ira em mim e comecei a descarregar tudo isso naquela conversa. Falei coisas horríveis e sem pensar. Coisas como: "As pessoas irão nesse evento apenas para mostrarem serviço ao pastor", entre outras coisas.

Naquele momento, um dos meus amigos mais próximos puxou-me de canto e contou seu testemunho sobre perdão. Por respeito à privacidade dele, não posso entrar em detalhes. Deus usou o testemunho desse meu amigo para me dizer: ‘Tem coisa que você precisa tratar’. Conversei com minha esposa e chegamos à seguinte conclusão: estávamos amargurados porque estávamos guardando rancor e não perdoamos.

Naquela noite, decidimos dar um basta nessa situação. Lembrei-me de uma pregação do meu pai onde ele disse: “Se não conseguir perdoar de coração, peça a Deus, pela fé, para que Ele te ajude a perdoar”. Eu ainda não estava pronto para perdoar de coração, mas sabia que precisava perdoar. Então, lemos Efésios 4:25-32.

Portanto, cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de um mesmo corpo."Quando vocês ficarem irados, não pequem". Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha,e não dêem lugar ao diabo.O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade.Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual vocês foram selados para o dia da redenção.Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade.Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando se mutuamente, assim como Deus perdoou vocês em Cristo.

Meditamos nesse texto e entendemos que estávamos dando lugar ao diabo e vivendo bem longe do que Deus queria. Começamos a orar pedindo perdão a Deus por termos carregado essas coisas por tanto tempo. Perdoamos, pela fé, as pessoas; citando nome por nome. O interessante é que fomos movidos a orar da seguinte forma: “Deus, ajude-nos a demonstrar amor a essas pessoas”.

Fizemos aquela oração de todo coração. Choramos e clamamos muito. No final da oração, sentimos, depois de um bom tempo, o que é sermos livres. Parecia que uma tonelada havia saído dos meus ombros. Milagrosamente, consegui olhar as pessoas e sentir amor por elas, e Deus nos deu oportunidades para demonstrarmos amor a essas pessoas. Os desejos ruins foram embora. Estamos livres.

A falta de perdão em nossas vidas é muito séria. Corrói-nos por dentro e não nos permite viver o que Deus quer que vivamos. Quando Jesus ensinou a perdoarmos 70x7, ele não quis colocar uma quantidade que devemos perdoar; mas sim, perdoar sempre.

C.S. Lewis, em seu livro "Cartas a Malcolm", diz que o que nos ajuda a perdoar é lembrarmos nossas transgressões. Quando lembramos o que fizemos com Jesus e com nosso próximo, de repente, perdoar se torna mais fácil.

Perdoar é libertador. Engana-se quem pensa que perdoar é deixar a outra pessoa escapar. Quer saber de uma coisa? Não importa o quanto desejamos que uma pessoa pague pelo que fez; Deus ainda assim continuará abençoando e tendo misericórdia desta pessoa. A falta de perdão só aprisiona você, não o outro.

Seja livre. Perdoe!

Por Fernando Queiróz, psicólogo; líder do ministério Change (jovens de 18-25 anos) na Primeira Igreja Batista de Santo André, onde também trabalhou com adolescentes. Filho de pastor; amante da teologia e da antropologia cultural.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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