Existem gentios no Reino de Deus?

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Publicado em Segunda-feira, 19 Julho de 2021 as 3:22

Uma introdução ao estudo das 2 Casas de Israel (judeus e ‘gentios’):

1 – A PRINCIPAL MISSÃO DO MESSIAS

O Messias Ieshua nos disse que na primeira vez em que Ele veio foi somente para as ovelhas perdidas da Casa de Israel (Mateus 15:24). Mas, o que Ele quis dizer com esta afirmação?

As Escrituras falam da existência de duas ‘Casas’. Enquanto o Reino do Sul era chamado de ‘Beit Iehudá’ (Casa de Judá), a quem conhecemos hoje como ‘os judeus’, o Reino do Norte era apelidado de três nomes: ‘Beit Israel’ (Casa de Israel) ou ‘Beit Efrayim’ (Casa de Efraim) ou ainda ‘Beit Yosef’ (Casa de José). Todos estes três nomes são usados de forma sinônima nas Escrituras, e se referem ao que comumente chamamos de ‘As 10 Tribos Perdidas’ de Israel. 

Como Ele veio da primeira vez com as ovelhas perdidas da Casa de Israel sendo seu principal objetivo, isto logicamente demonstra que a grande maioria dos Seus seguidores são fundamentalmente os descendentes das 10 Tribos Perdidas de Israel, e co-herdeiros do Reino de Israel com os da Casa de Judá. 

Existem diversas provas nas Escrituras a respeito deste tema, e recomendamos fortemente a leitura da nossa série de estudos “A Completa Restauração de Israel”. O objetivo deste artigo é ser apenas um breve resumo do tema, uma

2 – A DIVISÃO ENTRE AS CASAS DE ISRAEL

O Reino de Israel foi dividido em duas partes logo após o reinado de Shlomo HaMelech (o rei Salomão), como podemos ver em I Reis 11. O Reino do Norte, a Casa de Efraim, foi levada cativa pelos assírios (arameus), no que ficou conhecido como a ‘Grande Dispersão’ ou ainda a ‘Diáspora’.

As profecias de Hoshea (Oséias), Devarim (Deuteronômio), entre outras, previam que as ovelhas perdidas da Casa de Israel seriam um dia levadas ao cativeiro por desobediência à aliança com o Eterno, mas que eles retornariam a Israel um dia. Mas então quem seriam estas ovelhas perdidas e como elas poderiam retornar à comunidade de Israel?

Podemos facilmente demonstrar através da série de estudos “A Completa Restauração de Israel” que existe uma vasta quantidade de passagens bíblicas que demonstram que os chamados “gentios” que seguem a Ieshua não são de fato gentios, mas sim na realidade descendentes das 10 Tribos de Israel cujo destino nos planos do Eterno já era previsto pelos profetas.

3 – QUEM SÃO OS ‘GENTIOS’?

No primeiro século, os descendentes das 10 Tribos eram chamados pelos judeus de duas formas: como ‘gentios’ e como ‘arameus’. O motivo é o seguinte: os rabinos da época passaram a considerar os efraimitas (isto é, os israelitas pertencentes às 10 tribos, ou à ‘Casa de Efraim’) como sendo ‘gentios’, pois eles não mais viviam na terra de Israel, nem preservavam a língua hebraica, nem tampouco a observância da Torah do Eterno. 

Este relato pode ser visto no Talmud, no tratado Yevamot 17A. Outro nome frequentemente dado aos efraimitas era ‘arameus’, devido ao seu cativeiro na assíria. Para entendermos isso vamos ler um trecho do Talmude: “Rav Yehuda continuou sua recontagem: Quando eu disse isso halakha, hoje em dia há uma preocupação com o noivado dos gentios, antes de Shmuel, ele me disse: Não é preciso se preocupar com isso, pois seu filho de uma mulher judia é chamado seu filho, isto é, ele herda sua linhagem de você, e seu filho de uma mulher gentia não é chamado seu filho, mas sim filho dela. Consequentemente, todos os filhos nascidos de judeus de mulheres gentias não são considerados judeus, pois sua linhagem é determinada por suas mães gentias.

A Gemara pergunta: não existem meninas judias que foram capturadas por gentios, cujos filhos são considerados judeus? E Ravina disse: Aprenda com isso que o filho de sua filha de um gentio se chama seu filho. Nesse caso, os descendentes de mulheres judias capturadas por gentios seriam de fato judeus. 

A Gemara responde: Isso não é motivo de preocupação, pois é aprendido como tradição que as meninas das dez tribos daquela geração se tornaram estéreis e não deram à luz filhos, enquanto alguns dos homens exilados das dez tribos casaram-se com mulheres gentias. Consequentemente, todas as crianças nascidas lá eram gentios.

Há quem diga que Rav Yehuda realmente relatou o seguinte: Quando eu disse esse halakha antes de Shmuel, ele me disse: Eles não se mudaram dali, o lugar onde eles deliberaram sobre esse assunto, até que eles tornaram todos aqueles que se misturaram com as dez tribos em diferentes locais, gentios de pleno direito. Consequentemente, não há preocupação de que seus noivos possam ter algum efeito, como é afirmado: “Eles traíram traiçoeiramente contra o Senhor, porque tiveram filhos estranhos” (Os 5:7)”.

Os autores da Brit Hadasha (a ‘Restauração da aliança’, isto é, o chamado ‘Novo Testamento) conheciam esta terminologia, e a aplicaram em seus escritos. Nos originais hebraicos, encontramos o termo ‘grego’ e ‘gregos’ muito frequentemente, onde nas traduções atuais (derivadas da tradução do grego), são referências inconfundíveis aos efraimitas! Rav. Sha’ul chega a declarar: “Não há judeu nem grego” no Messias, mostrando o nítido objetivo do Messias de restaurar o Tabernáculo de David, isto é, o Reino de Israel como um todo.

Rav. Sha’ul nos afirma ainda nos capítulos de 9 a 11 de Romanos, de forma bem clara, que estes que eram chamados de ‘gentios’ na realidade são parte das 10 Tribos perdidas de Israel, pois ele fala destes ‘gentios’ e do seu papel nas profecias de Oséias. As profecias de Hoshea previam que as 10 Tribos seriam espalhadas por um tempo, mas que seriam reunidas um dia.

Repare ainda que as epístolas dos demais emissários de Ieshua, como a de Ia’aqov (Tiago) e Kefa (Pedro) são escritas não para ‘gentios’ como se pensa, isto é, ‘estrangeiros’ à Casa de Israel, mas sim aos que são chamados de gentios, mas são na realidade ‘as doze tribos que estão dispersas entre as nações’ e ainda ‘aos eleitos e peregrinos da Dispersão’ (Tg 1:1 e I Pe 1:1, respectivamente). Os ‘gentios’ na Brit Hadasha que foram e estão sendo restaurados em Ieshua são portanto descendentes das 10 tribos de Israel, e seu destino profético é, futuramente, se tornar novamente um só povo com Iehudá (Judá) e reinar sobre a terra de Israel.

4 – DESVENDANDO O MISTÉRIO DAS ESCRITURAS

Um dos grandes mistérios das Escrituras é que, enquanto o Messias Ieshua aparentemente teria trazido divisão entre as 2 Casas (judeus e os ‘gentios’, isto é, os efraimitas), os judeus não foram rejeitados, mas convém ao plano do Eterno que haja uma aparente rejeição dos judeus ao Messias, pelo menos por enquanto.

As 2 Casas (os judeus e os efraimitas) precisavam permanecer separados por alguns séculos, porque cada qual tinha sua missão separada para cumprir, para que o plano divino de redenção da semente caída de Adam (Adão) se concretizasse. E eles não teriam trilhado caminhos opostos se esta inimizade temporária não tivesse sido posta entre eles. Mas o Eterno é maravilhoso, e esta inimizade é apenas temporária, e com um propósito.

Rav. Sha’ul nos diz que ele não deseja que sejamos ignorantes com relação a este mistério das Escrituras. Apesar de parecer que os judeus, por sua incredulidade no Messias, teriam sido ‘rejeitados’, isto não acontece pois os dons e a eleição do Altíssimo são irrevogáveis. Isto pode ser visto com clareza em Romanos 11:25-30: “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios [isto é: da Casa de Efraim] haja entrado e assim todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Tsion o Libertador, e desviará de Ia’aqov as impiedades e esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados. Na verdade, eles [isto é:a Casa de Judá] só são opositores quanto às Boas Novas por causa de vós [isto é: a Casa de Efraim]; mas, quanto à eleição, amados por causa dos patriarcas. Porque os dons e a vocação de Elohim são irretratáveis.”

Isto não quer dizer que não tenhamos que aceitar Ieshua como salvador e mestre, mas sim que a eleição e o chamado de D-us são irrevogáveis e, portanto, os judeus são tão povo da aliança quanto Efraim, mesmo que ainda não tenha chegado aos judeus o momento de aceitarem, de forma maciça, ao Messias. Ainda estamos vivendo no tempo de Efraim, e não no de Iehudá (Judá).

5 – A RESTAURAÇÃO PROFÉTICA DOS MESSIÂNICOS

O objetivo da fé judaico messiânica é nada mais do que promover teshuvá (retorno). Retorno de Efraim à comunidade de Israel. Retorno de todos os israelitas ao Eterno através do Messias Ieshua. Retorno à obediência à Torah do Eterno. E, por fim, o retorno à pureza da fé, deixando para trás os rudimentos do paganismo.

Como sabemos, desde o final do século 1, a fé judaico messiânica tem sido combatida com veemência. Apesar das inúmeras tentativas de extermínio total dos judeus messiânicos, o retorno aos princípios das Escrituras, a uma era da fé original que está em linha com a dos emissários de Ieshua, também é profetizada. Era profetizado que os judeus messiânicos seriam reavivados em cerca de 2 mil anos após um grande evento (vide Os 6:2). 

Outras profecias nos apontam para o fato de que este grande evento seria o nascimento de Ieshua HaMashiach (cerca de 4 DC). E, ao olharmos para o mundo atual, vemos que o Pai está de fato restaurando a fé judaico messiânica original.

É nosso desejo que todos aqueles que seguem o Messias, tanto judeus quanto “efraimitas”, partilhem conosco desta restauração, pois após 2 mil anos de trevas e apostasia, o Eterno nos chama com a missão de restaurarmos a fé, e promovermos o fim da inimizade entre Efraim e Iehudá.

Temos então a missão de não somente buscarmos a restauração como também a implementarmos de forma eficaz, não adulterando os ensinos originais das Escrituras e nem mesmo deixando para trás a nossa história como crentes em Ieshua.

A restauração é necessária, mas também precisamos ter cuidado com os desvios e com aqueles que têm buscado desvirtuar a verdadeira fé no Ungido tentando inserir em nosso meio ensinos que são incompatíveis com aquilo que foi ensinado por Ieshua e seus enviados.

Zelo. Esta é a palavra à qual temos de nos apegar.

Que o Espírito o Santo nos ajude a termos clareza em nosso caminhar e não permita que nos desviemos da Verdade.

Por Rav. Mário Moreno, fundador e líder do Ministério Profético Shema Israel e da Congregação Judaico Messiânica Shema Israel na cidade de Votorantim. Escritor, autor de diversas obras, tradutor da Brit Hadasha – Novo Testamento e conferencista atuando na área de Restauração da Noiva.

*O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: O significado da palavra Elohim

Deixe um comentário